quinta-feira, 14 de abril de 2011

Uma nobre profissão

Você sabe o que é um carteirista?

Até há relativamente pouco tempo eu não tinha a menor idéia do que era um carteirista e, se perguntada fosse, iria dizer que decerto se referia a alguma nobre profissão educacional, o que não deixou de ter a sua correção.

Tive o imenso desprazer de ser confrontada com a atividade desse nobre profissional quando estive pela primeira vez em Portugal, mais exatamente em Lisboa.

Pois que entrei no bonde, que por lá se chama eléctrico, na Praça do Comércio para ir a Belém, visitar o Mosteiro dos Jerônimos e comer dos famosos pasteizinhos que na verdade parecem antes empadas doces, ou seja, um programa mais de turista impossível.

O eléctrico chegou e todos os turistas, que não eram poucos, ficaram se empurrando para entrar no bonde. Como sardinhas enlatadas ficamos nós, pobres turistas, o que facilitou em muito a ação do carteirista, que também estava no elétrico, mas desceu logo na próxima estação, levando consigo minha carteira, onde não havia dinheiro algum, mas todos os meus documentos e mais cartões de crédito e de banco.

Deu-se então o inusitado, aquela seqüência de acontecimentos cujo produto final é rotulado de milagre.

O carteirista desceu na estação e jogou a carteira num cesto de lixo, o que foi visto por um motorista de táxi que tinha ponto naquela estação.

Entre os documentos que havia na carteira encontrava-se também o cartão funcional do meu trabalho. O motorista de táxi viu esse cartão e sabia que seus fregueses de um escritório ali na praça trabalhavam com a empresa cujo nome estava estampado na minha carteira funcional.

Foi lá e falou com sua conhecida que por sua vez ligou então para a filial do meu empregador em Lisboa.  A funcionária de Lisboa olhou então na lista telefônica interna da empresa e, veja só, de fato estava lá o meu nome e o número de telefone da minha empresa na Alemanha.

Como ela também falava alemão, não teve dúvidas e ligou para lá contando do ocorrido e de que haviam encontrado a carteira e coisa e tal.

Por mais um desses acasos inexplicáveis, na firma se sabia em que hotel eu estava.

Ao chegar ao hotel de volta do passeio, que no final das contas nem passeio foi, pois assim que me dei conta da falta da carteira começou o inferno de ir na polícia, bloquear os cartões e todas essas desagradabilíssimas coisas que se tem de fazer quando o carteirista entra em ação, sem te perguntar antes se pode, havia no quarto do hotel um telefax da minha colega de trabalho me passando o número de um telefone onde deveria telefonar para agendar a devolução da carteira. 

Atônita, sem acreditar muito no que estava lendo, telefonei para o tal número e, veja só, de fato uma simpática lusa me deu todas as coordenadas para que eu fosse então buscar a carteira no endereço assim e assado.

Mas, o meu anjo da guarda de plantão naquele dia provavelmente ainda não tinha tirado o diploma final no curso de milagres perfeitos, pois o dia era sexta-feira e o relógio marcava já 18 horas, com o que, a carteira iria passar o fim-de-semana trancada numa gaveta de um escritório lisboeta e só voltaria a meu poder na segunda-feira, que era o dia em que eu voltaria para casa. 

Só depois desse incidente é que eu entendi o que essa placa que se encontra em todos os eléctricos de Lisboa significa:

 

Ah, sim, antes que eu me esqueça, a simpática moça lusa disse-me ao telefone que desde que os brasileiros começaram a invadir Portugal, em função de algum acordo entre o Governo Português e o Governo Brasileiro, essa profissão desenvolveu-se com uma rapidez assustadora. Não acreditei muito nessa coisa, pois se assim o fosse, teria sido um batedor de carteiras e não um carteirista que havia levado a minha carteira, né não?  

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