domingo, 24 de abril de 2011

Domingo de Páscoa

A partir de quando se é velho? Uma pergunta que parece não caber muito num domingo de Páscoa, onde sabidamente se festeja a ressurreição de Nosso Senhor, Jesus Cristo, que, aos 33 anos de idade, morreu crucificado para salvar a Humanidade de seus pecados.


Independentemente do fato de que nesses dois mil anos que nos separam da crucificação do Cristo o conceito de pecado ter mudado bastante, sendo que hoje em dia penso não haver mais pecado no mundo, pois tudo me é lícito (mas nem tudo me convém, já dizia o Apóstolo Paulo na primeira epístola aos Coríntios - 10:23), o fato de alguém ter morrido barbaramente na cruz para salvar a mim de meus pecados sempre me incomodou bastante.


Eu não queria que Cristo tivesse de morrer na cruz para me salvar de meus pecados, mesmo porque eu não sei quais são meus pecados e aquilo que em algum dia no remoto passado foi considerado pecado, hoje em dia é algo sancionado pela sociedade em geral e pelos indivíduos em particular.


Na imensa aldeia global em que se transformou o mundo não existem limites e nem fronteiras além daqueles determinados pelo próprio indivíduo. Leis existem para serem interpretadas e sábio é aquele que usa a lei a seu favor e o resto que se exploda.


Assim, não sabendo muito bem como refletir sobre pecado nessa linda manhã da Ressurreição, fiquei a me perguntar sobre a velhice e concluí que se é velho a partir do momento em que se sente mais saudade daqueles que já morreram do que daqueles que ainda estão vivos.


Passei então em revista meus mortos e meus vivos e concluí que devo estar na meia-idade. Ainda não tenho tantos mortos que fazem bater em mim uma baita saudade e os vivos de quem tenho saudades estão perfeitamente a meu alcance, apesar de muitos estarem distantes a horas de viagem.


Na sexta da paixão assisti a um curto documentário de Margot Käßmann onde ela dizia da morte como a grande mensagem da vida.


A biografia de Margot Käßmann é interessante, sobretudo para aqueles que se interessam pela relatividade do pecado. Nascida em 1958, estudou teologia luterana e em 1985 foi ordenada Pastora da Igreja Luterana. Casou-se com um pastor luterano e juntos tiveram quatro filhas. Depois de uma carreira fulminante onde se inclui um doutoramento, Käßmann foi eleita Bispa da Igreja Luterana de Hannover, o maior braço da Igreja Luterana na Alemanha, com mais de três milhões de membros. Em 2007 divorciou-se e nessa ocasião colocou o seu cargo à disposição, o que não foi aceito pelo Conselho da Igreja: divórcio não é motivo para renunciar a qualquer cargo na Igreja Luterana.


Em outubro de 2009 veio então o ponto alto de sua carreira: Käßmann foi eleita a primeira Presidente mulher do Conselho da Igreja Luterana da Alemanha, um cargo equivalente ao de Presidente da Conferência Nacional dos Bispos.


No dia 20 de fevereiro de 2010, por volta das 11 da noite, Käßmann ultrapassou um sinal vermelho no trânsito de Hannover e foi imediatamente controlada pela polícia. O exame de sangue mostrou que ela tinha 1,54 promille de álcool no sangue. Permitido é um índice de 0,5!


Dentro da idéia "atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado", o conselho da Igreja Luterana colocou-se completamente ao lado de Käßmann. Mas ela mesma não conseguiu viver com esse pecado e renunciou a todos os cargos que tinha dentro da Igreja Luterana. Simultaneamente perdeu sua carteira de motorista por um ano e foi processada por negligência pela condução de veículo automotor em estado de embriaguez e condenada a 30 dias de multa, que no caso dela deve ter dado uma boa soma, já que essa multa é calculada em cima do valor do salário da pessoa!


Depois de alguns meses nos Estados Unidos, onde lecionou teologia em Atlanta nos USA, Käßmann voltou à Alemanha onde, ao lado de algumas aulas em universidades, tem também moderado alguns programas de televisão, como esse da sexta-feira da paixão, onde fala da morte usando o caso de uma família que teve trigêmeos, dos quais somente um sobreviveu. Para quem entende alemão e se interessa, aqui o link para se assistir ao vídeo de 14 minutos.


Para que possa haver ressurreição, tem de ter havido antes a morte, o que de novo me remete a meus mortos, nesse domingo da Ressurreição. E a saudade bate, e as lágrimas caem, pois estou ficando velha e tenho de fato mortos que me fazem muita falta.


Uma mãe que chora a perda de seu filho, a Mater Dolorosa, imortalizada por Michelangelo, uma figura simbólica que não cabe num domingo de Páscoa.  


Pietá na Catedral de Frankfurt


A primeira Páscoa sem minha mãe, que morreu antes do Natal. Será que nos céus do Senhor também se festeja a Páscoa?




  





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