segunda-feira, 4 de abril de 2011

O passado revisitado

Há coisa de uns dois anos fui passear pelo interior do Estado de São Paulo em busca da famosa Fazenda Ibicaba, pioneira no sistema de parceria para recrutamento de colonos estrangeiros para a lavoura cafeeira. 


Em lá chegando tentei tirar algumas fotos quando surge um cidadão vociferando que lá não se podia fotografar e que tratássemos de ir embora que não nos queria por lá. 


Eu ainda consegui rapidamente tirar uma foto da séde da Fazenda Ibicaba:

mas quando tentei tirar mais uma foto o cidadão ameaçou me arrancar a câmera da mão. Minha prima ainda tentou dialogar com ele, mas tudo em vão. 

Saímos de lá correndo e fiquei a me perguntar se, porventura, isso ainda poderia ser resquício dos acontecimentos de mais de 150 anos atrás, quando os primeiro imigrantes suíços e alemães apareceram por lá trazidos pelo Senador Vergueiro dentro do sistema de parcerias.

Pois que, liderados pelo suíço Thomas Dawatz, que também era mestre-escola, os colonos se rebelaram e o assunto criou polêmicas imensas, tanto no Brasil como no exterior, a ponto de em regiões da hoje Alemanha ter sido proibida a emigração para o Brasil.

Esse amotinamento dos colonos foi discutido vários dias em agosto de 1857 no plenário da câmara dos deputados. 


Transcrevo aqui, com ortografia atualizada um ofício lido na discussão na sessão plenária do dia 26 de agosto de 1857 da Câmara dos Deputados do Parlamento Brasileiro no Rio de Janeiro.


Fala do Sr. Gavião Peixoto em resposta à fala do Sr. Barbosa da Cunha sobre um presuntivo plano de insubordinação organizado por Thomas Dawatz, mestre-escola e imigrante suíço da Colônia de Parceria Senador Vergueiro na Fazenda Ibicaba:


Sr. Gavião Peixoto: - Sim, havia um plano, como se conhece pelos fatos que venho a expor. Havia um plano que ameaçava a ordem pública e o governo, a cujo conhecimento esses fatos foram trazidos, não tratou de fazê-lo abortar e nem ao menos mandou desarmar os colonos que, em número de mais de 150, se achavam muito bem armados!


Para que melhor se conheça a gravidade daquela situação, Vossa Excelência, Senhor Presidente, me permita que eu leia as representações que as câmaras municipais de das vilas de Rio Claro e de Limeira dirigiram ao Vice-Presidente da Província, por ocasião daquele acontecimento (...)


"Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor - A câmara municipal da vila de Limeira, cumprindo com seu dever, tem o desprazer de levar ao conhecimento de Vossa Excelência o mau estado em que se acha o seu município, a respeito da segurança pública que se acha ameaçada e será perturbada se não partirem de Vossa Excelência medidas previdentes que garantam os justos receios da população. Vossa Excelência, melhor do que essa câmara está informado das últimas ocorrências havidas na Colônia Senador Vergueiro colocada na fazenda Ibicaba deste distrito, e melhor que nós poderá avaliar as conseqüências.


Os boatos que dali exalam de plano dos colonos alemães de combinação com os de outras colônias, com quem se acham ligados formando ali o centro, é para formarem uma independência, de uniformidade com os escravos, têm aterrado o povo e com especialidade aos fazendeiros; e se forem levados a efeito seus malévolos planos, o que Deus não permitirá, seríamos por certo os mais infelizes habitantes da nossa bela província. Assim, pois, esta câmara pede a Vossa Excelência a colocação de uma força respeitável para conter a explosão que nos ameaça e medidas acertadas para evitar sua reincidência, e esta câmara julga que o primeiro caso depende da referida força, e o segundo de medidas legislativas ad hoc ao novo sistema pelo país incetado, com o fim de suprir na lavoura os braços que vão nos faltando. Não admira este movimento, quando temos em pequeno círculo mais de 3.000 almas estrangeiras e de uma só profissão! O que nos admira é termos sido tão felizes até o presente sem que a má estrela viesse turvar o horizonte como agora vemos.


A câmara fica descansada no zelo de Vossa Excelência que atendendo ao exposto votará conosco as medidas que reclamam a nossa posição. Deus guarde a Vossa Excelência por muitos anos como convém.


Paço da Câmara Municipal da Vila de Limeira, em sessão extraordinária de 25 de fevereiro de 1857.

Eu amei essa carta. Sempre quis escrever "Tenho o desprazer de comunicar ...", achando que seria uma grande inovação e, veja só, na Vila de Limeira já se escrevia assim há mais de 150 anos.


Para quem se interessa pela discussão completa:
Fonte: Annaes do parlamento Brazileiro, página 165.





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