sábado, 14 de maio de 2011

A história desprezada ou a morte de um cemitério

Uma das coisas que mais me fascina aqui na Alemanha é o respeito e cultivo pela história. Mesmo que durante algum tempo, períodos da história mais recente foram varridos para baixo do tapete, mais cedo ou mais tarde surge alguma iniciativa privada que vai recuperá-la. Sou tentada a aqui mostrar uma série de exemplos, mas o meu objetivo hoje é tentar contar uma outra história: a história de um cemitério histórico, totalmente desprezado e caindo aos pedaços.


Logo na entrada uma placa:
Limeira, 18 de outubro de 1987.
Trata-se do Cemitério do Bairro dos Pires em Limeira, Estado de São Paulo. No link uma curtíssima história do Bairro. Aliás que esse bairro não deixa de ser uma espécie de testemunho de que os contratos de parceria não foram destituídos de correção, uma vez que os fundadores desse Bairro são ex-colonistas da famosa Colônia Senador Vergueiro da Fazenda Ibicaba.


Historicamente esse bairro deveria constar bem no topo de qualquer obra que trate de alemães no Estado de São Paulo, sobretudo dentro da História da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil: O Bairro Pires de Limeira foi a primeira Comunidade Luterana no interior (e quiçá no estado inteiro) de São Paulo a ter um pastor sob contrato. Mas isso também é uma outra história.


Evangelische Kirche - Bairro dos Pires - Limeira
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Bairro dos Pires 
Fundada em 1873.
O Cemitério localiza-se pouco antes de se chegar à Igreja. Aliás que chegar a esse Bairro é quase que uma aventura, pois não tem asfalto e nem sinalização. Algo quase impensável para o Estado de São Paulo, sobretudo considerando que essa localidade fica a 150 km de São Paulo e a 60 km de Campinas, sem contar que se trata de uma das regiões mais desenvolvidas e assim mais ricas do país.


Logo na entrada do cemitério a placa acima, que faz com que se imagine que uma restauração ocorrida há quase 25 anos de fato conserve alguma coisa. Mas, além da placa, nada mais se encontra conservado. 


Vista da entrada do cemitério 
À medida que vai se caminhando para dentro do cemitério, mais a gente se choca com o desleixo:


Inúmeros túmulos têm esse aspecto.
Em sua maioria os túmulos são em mármore e as incrições em alemão. Inscrições preciosas, que com singelas e curtas palavras resumem uma história de vida:
Aqui, na fria terra, descansa Dorothea Marie Jurgensen,
nascida em Holstein em 2 de junho de 1828, falecida em 5 de abril de 1895.
 Suavemente descansem suas cinzas.  
A sujeira impera.
Se isso fosse aqui na Alemanha, já há muito tempo teria sido formado um grupo interessado em recuperar essa história e não deixar o cemitério também morrer: esse, infelizmente, ninguém vai poder enterrar e já se encontra no melhor dos caminhos para se tornar cinza.


Será que se eu fundar uma ong para salvar esse cemitério da morte certa encontraria pessoas interessadas em ajudar?

6 comentários:

  1. triste falta de respeito dos herdeiros! pois é assim que acabam as antigas histórias familiares. O cemitério do Redemptor, em São Paulo, está transformado no jardim mais lindo da cidade porque os herdeiros pagam as taxas de manutenção. vamos lá: vai em frente com a Ong.. mas fundamentalmente sair a cata dos descendentes.. coisa meio difícil, mas não impossível. abração

    ResponderExcluir
  2. Conheço este cemitério, estive por volta de 2003, não sei o estado que se encontra.
    Paulo Henrique Tückmantel Dias
    Pirassununga/SP

    www.familiatuckmantel.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. Muito triste a situação.
    Mas acredite, o cemitério está inteiríssimo perto de muitos (como o de quatro colônias norte, em campo bom, em que não restou lápide em pé).
    Vi poucos danos irreversíveis, o maior dano é a falta de interesse mesmo. O que nos casos de cemitérios costuma ser mais complicado ainda que no patrimônio arquitetônico em geral.

    Acho que uma tentativa de solução é agregar interessados (mesmo que sejam poucos) e levar uma proposta de tombamento aos órgãos responsáveis (municipal ou estadual). Com o reconhecimento oficial como patrimônio, os caminhos possíveis são mais numerosos.

    Grande abraço!
    Jorge Luís Stocker Jr.
    Blog Die Zeit
    http://dzeit.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O cemitério Histórico Alemão está sendo ajudado pela Associação de Amigos de Bairro dos Pires. Já fizeram algumas reformas e novas benfeitorias. Tmbm foi colocado cerca elétrica e câmeras de seguranca. Pois do poder público quase não temos auxílio nenhum para preservar este patrimônio histórico.

      Excluir
  4. Parabéns pelo seu blog...uma delícia lê-la. Sem contar que escreve muito bem e com graça. Obrigado também por seguir A REVOLTA DAS PALAVRAS... já estou te seguindo também.
    Abraços
    Óscar Fuchs
    (cronicasoscar.blogspot.com)

    ResponderExcluir
  5. o desleixo do prefeito da cidade é muuuuito grande....

    ResponderExcluir